Peso da Régua - Uma aventura no Douro I
Trezentos e cinquenta e tal quilómetros depois. Três horas e qualquer coisa, passadas. Seguido a Lamego onde almoçámos... entre o Peso da Régua e Vila Real...

Miradouro de São Leonardo de Galafura
Sítio que o poeta adorava...
De tal modo, que aqui se deixa ler, sobre o seu sentir sobre o lugar

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!
MIGUEL TORGA

O Douro na sua majestade...
E a agricultura das vinhas em Socalcos

"Este tipo de construção rural também é utilizada na região do Douro para o cultivo da vinha, de onde é produzido o famoso vinho do Porto. Na região dos Andes, na América do Sul, técnicas de terraceamento também foram utilizadas em larga escala pelos incas..."

Como alguém me dizia, há poucas horas atrás: "O Douro é lindo... mas é muito trabalho! As pessoas chegam e tiram fotografias, mas o povo daqui é que esculpe esta paisagem. É muito suor que ali está. A história de muita gente, que aos turistas nunca é contada."



"O Douro é lindo e é muito trabalho..." Pura verdade! Tudo que aqui é produzido é-o, à custa de muito sacrifício e horas de carregos (pesos) nos ombros e nos braços, - curvados de tesoura na mão, ou ao volante de um camião que transporta as uvas -, de todos que as plantam (cavam a terra) e podam, sulfatam; e ainda assim, por esses vinhedos fora... as pessoas, ao ver-nos passar, erguem-se e acenam-nos com um sorriso aberto! Interrompem, por segundos, o seu labor e dizem adeus a quem passa e que nunca viram.
Pessoas, que vão depois para lugares que a maior parte dos que acenam, nunca conhecerão. E no entanto... no rosto tisnado pelo sol, destas pessoas, não se vê amargura nem raiva!
Acenam-nos quando passamos no comboio. Fazem-no, quando o barco passa e, também de cá se acena, a quem não conhecemos mas ficamos a querer bem. A quem, quando interrogado sobre alguma coisa... nunca nos sonega a informação e até nos acompanha aos lugares.
O Douro é lindo! Porque a gente que faz o Douro é linda também. Além, isso, tem uma alma especial e um coração... igualmente de ouro (d'ouro).


No 3º domingo de Agosto, neste lugar, realiza-se uma grande romaria da população e arredores (com piquenique) em honra de São Leonardo. O sítio é lindíssimo. Sossegado e bem "servido" de mesas e bancos. Muito limpo, embora a estrada de acesso seja estreita e o piso um pouco acidentado. Sem dúvida um sítio imperdível a quem se desloque a esta parte do país.

Debaixo de um sol abrasador, às quatro da tarde, São Leonardo de Galafura é um com "cântaro de barro" de água fresca para a alma e uma iguaria rica, para o olhar. Já tenho saudades...
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