A Fábula da Convivência

Schopenhauer expôs este conceito em forma de parábola na sua obra ‘Parerga und Paralipomena’, publicada em 1851, onde reuniu várias das suas polémicas anotações filosóficas. O dilema do porco-espinho é apenas um parágrafo que surge no Volume II desaa obra. No entanto, tornou-se um conto popular com inúmeras versões, citado mesmo, por Sigmund Freud, o pai da psicanálise.
A Fábula da Convivência
Durante uma era glacial muito remota, quando parte do globo terrestre estava coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às condições de clima hostil.
Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou unir-se, e a juntar-se mais e mais. Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro. E todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente. Aqueciam-se enfrentando por mais tempo, aquele inverno tenebroso.
Porém, vida ingrata! Os espinhos de cada um começam a ferir os companheiros mais próximos. Justamente aqueles que lhes forneciam mais calor. Mas... numa questão de vida ou morte, afastaram-se, feridos, magoados, sofridos. Dispersaram-se por não suportar mais tempo os espinhos dos seus semelhantes. Doía-lhes muito…
Essa não foi a melhor solução! Afastados, separados... principiaram a morrer.
Os que não morreram voltaram a aproximar-se pouco, a pouco, com jeito e precauções, de tal forma, que, unidos, cada qual conservava uma certa distância mínima do outro, mas o suficiente para conviverem sem se ferir. Para sobreviverem sem magoar, ou causar nenhum dano recíproco.
Assim se foram suportando e resistindo à era glacial. E assim... Sobreviveram.
É fácil trocar palavras, difícil é interpretar o silêncio!
É fácil caminhar lado a lado, difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto, difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos, difícil é reter o seu calor!
É fácil sentir o amor, difícil é conter a sua torrente!
“Todos nós somos anjos de uma asa só e, para voarmos precisamos estar abraçados uns aos outros.”
António Carlos Caio Viegas
Fonte: Revista Prosa, Verso & Arte
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