Coisas que Gosto

 


 


 


 


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Gosto do Inverno! Do frio e dos dias de chuva, nublados. Gosto de caminhar pela estrada e de molhar a biqueira dos sapatos nas poças. Voltar à meninice e afogar o sapato inteiro nelas, atravessando-as sem as evitar. 


Gosto de abrir a boca e deixar sair o ar quente dos meus pulmões, que encontra a frigidez da atmosfera e faz-se  também ele, neblina. Gosto de nuvens densas sobre a montanha. A sua visão encanta-me e preenche-me. Jamais causa susto, ou contrariedade.


 


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Quando está frio no tempo do frio para mim é como se estivesse agradável


 


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,


Porque para o meu ser adequado à existência das coisas


O natural é o agradável só por ser natural.


 


Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,


Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—


Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,


E encontra uma alegria no facto de aceitar—


No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.


 


Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece


Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?


O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,


Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,


Da mesma inevitável exterioridade a mim,


Que o calor da terra no alto do Verão


E o frio da terra no cimo do Inverno.


 


Aceito por personalidade.


Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,


Mas nunca ao erro de querer compreender demais,


Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.


Nunca ao defeito de exigir do Mundo


Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.


 


Alberto Caeiro


 


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Fotografias minhas, sob direitos de autor 


 


Gosto (adoro) caminhar no campo entre as ervas molhadas e não me importo (um pouco), muito, se as calças me sobram molhadas aderindo às pernas, travando-me a marcha. Gosto (adoro) ver grupos de montanhas, rodeadas de um fumo cinza, não mais que nevoeiro cerrado, que nos ataca de repente no topo, prejudicando a visão... para lá do perigo!


 


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Amo de paixão "assolapada" assistir à respiração da floresta. Dos ramos que choram lágrimas puras, oscilando ao vento. E de imaginar através dela (floresta/montanha) e do musgo na casca das árvores, os animais calmamente a passear (no solo irregular e íngreme) em busca de sustento. 


 


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Gosto das pedras e dos pedregulhos. Da proximidade de alguns que inofensivamente, embora selvagens" se deixam tocar. Daquele cheiro único! Porque pertenço ali. Gosto de frio agreste. Do gelo nos ossos. Da terra encharcada. Da chuva miudinha, ou dela implacável, por entre cortinas de cinza translúcido. 


 


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Fumo



Longe de ti são ermos os caminhos, 
Longe de ti não há luar nem rosas; 
Longe de ti há noites silenciosas, 
Há dias sem calor, beirais sem ninhos! 


Meus olhos são dois velhos pobrezinhos 
Perdidos pelas noites invernosas... 
Abertos, sonham mãos cariciosas, 
Tuas mãos doces plenas de carinhos! 


Os dias são Outonos: choram... choram... 
Há crisântemos roxos que descoram... 
Há murmúrios dolentes de segredos... 


Invoco o nosso sonho! Estendo os braços! 
E ele é, ó meu amor pelos espaços, 
Fumo leve que foge entre os meus dedos... 


 



Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" 


(gif retirado da net)


 


 

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