Sabor a Mar
Vieira de Leiria
Publicação feita em 25.06.17

Dias de mergulhos controlados, num mar, nem sempre de fiar. Dias em que os víamos sair muito cedo, para mais uma campanha, ainda o sol dormia. E, preguiçoso, irradiaria lá mais para o meio da manhã...
Reuníamos conchas, pedras. Passeávamos pela borda d'água, no meio dos sargaços. Íamos até à Foz (do rio Lis) até ser hora de "ir ao banho".
Mais tarde quando os barcos chegavam, os bois puxavam as redes. Com a força auxiliadora dos braços dos homens, cantarolando uma ladainha para facilitar. Braços, depois substituídos pelos tractores.
Todos acorriam. Tudo se largava.
"Vem, aí o peixe! Venham ver as redes.!"
Era o alvoroço na praia! O peixe, cor de prata, saltitava. Contorcia-se. Com aquele cheirinho a mar, ainda enredado nos limos, vendia-se à dúzia. Ou, ao quarteirão. Ali, mesmo!

Os homens ainda a escolhê-lo e a desprendê-lo, das redes. Salvaguardar, algum para a Lota. Sardinha, carapau, cavala, lula, tudo o que vinha na rede fazia-se... uma novidade para as crianças.
Muitas, nunca tinham visto um peixe vivo! Poder comprá-lo assim, sem intermediário, acabado de sair do seu habitat natural, para ser logo salgado e posto na grelha... que privilégio!
Às vezes, surgia um conselho. Grátis! De como confeccionar a caldeirada, para ficar ainda mais saborosa. O por quê, do hábito, de "escalar" o peixe e de secá-lo ao ar.


Dias de sete saias, coloridas e de imaculados saiotes. Dias de xailes negros e de fatos longos, a condizer. Calça arregaçada pelo meio da perna, bronzeada. Calção subido, até à virilha, para não atrapalhar. Sapato? Nem vê.-lo! Dias de tamanca no pé e canastra à cabeça, ou levada na anca.
Dias em que as ancas delas, bailavam ao andar, como as ondas da praia. Os olhos e sorrisos deles, desafiando-se entre si, sobressaiam no rosto tisnado, contentes, porque a faina correra bem. Dias... em que o mar colaborou! Os empurrou para a praia, de barcos cheios.


Dias que não foram de mar encapelado. Horizonte carregado e indistinto. Do rugir zangado de Poseidon! Gritos, desespero e preces, das mulheres na praia. Dias de aflição, lágrimas e de promessas.
Dias de consternação de quem presenciava tudo, também, e os via a lutar no mar, (já sem forças). O barco a parecer de papel. Incapaz de contrariar um destino fatal. Dias, em que alguns por lá ficaram e nada, nada, tinha gosto. Cheiro, ou sabor!
Nesses dias o silêncio, vestia as ruas. A tarde amorrinhava-se a um canto, cinza e fria. A noite nascia mais escura!


Dias de tudo estar bem, quando acaba bem! A que regresso sempre que posso. Dias tão nossos! Cheios da alma desta gente que é, também, tão minha!
Perdi a conta aos dias que passei aqui. Aos anos que comunguei desta faina, até lhe saber os rituais. Dias de uma felicidade extrema. Hoje ainda mais valiosos pela conjuntura que nos rodeia.
Há memórias que são deliciosamente perfeitas.
ResponderEliminarÉ verdade, Nala! Muito obrigada, pela sua visita. Um bom resto de semana!
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