Sabor a Mar

 


Vieira de Leiria


 


Publicação feita em 25.06.17 


 


P1010034.JPG


 


Dias de mergulhos controlados, num mar, nem sempre de fiar. Dias em que os víamos sair muito cedo, para mais uma campanha, ainda o sol dormia. E, preguiçoso, irradiaria lá mais para o meio da manhã...


 


Reuníamos conchas, pedras. Passeávamos pela borda d'água, no meio dos sargaços. Íamos até à Foz (do rio Lis) até ser hora de "ir ao banho". 


 


Mais tarde quando os barcos chegavam, os bois puxavam as redes. Com a força auxiliadora dos braços dos homens, cantarolando uma ladainha para facilitar. Braços, depois substituídos pelos tractores.


 


Todos acorriam. Tudo se largava.


 


"Vem, aí o peixe! Venham ver as redes.!" 


 


Era o alvoroço na praia! O peixe, cor de prata, saltitava. Contorcia-se. Com aquele cheirinho a mar, ainda enredado nos limos, vendia-se à dúzia. Ou, ao quarteirão. Ali, mesmo! 


 


P1010035.JPG


 


 Os homens ainda a escolhê-lo e a desprendê-lo, das redes. Salvaguardar, algum para a Lota. Sardinha, carapau, cavala, lula, tudo o que vinha na rede fazia-se... uma novidade para as crianças.


 


Muitas, nunca tinham visto um peixe vivo! Poder comprá-lo assim, sem intermediário, acabado de sair do seu habitat natural, para ser logo salgado e posto na grelha... que privilégio!


 


Às vezes, surgia um conselho. Grátis! De como confeccionar a caldeirada, para ficar ainda mais saborosa. O por quê, do hábito, de "escalar" o peixe e de secá-lo ao ar.


 


P1010036.JPG


 


P1010038.JPG


 


Dias de sete saias, coloridas e de imaculados saiotes. Dias de xailes negros e de fatos longos, a condizer. Calça arregaçada pelo meio da perna, bronzeada. Calção subido, até à virilha, para não atrapalhar. Sapato? Nem vê.-lo! Dias de tamanca no pé e canastra à cabeça, ou levada na anca.


 


Dias em que as ancas delas, bailavam ao andar, como as ondas da praia. Os olhos e sorrisos deles, desafiando-se entre si, sobressaiam no rosto tisnado, contentes, porque a faina correra bem. Dias... em que o mar colaborou! Os empurrou para a praia, de barcos cheios.  


 


P1010040.JPG


 


P1010041.JPG


 


Dias que não foram de mar encapelado. Horizonte carregado e indistinto. Do rugir zangado de Poseidon! Gritos, desespero e preces, das mulheres na praia. Dias de aflição, lágrimas e de promessas.


 


Dias de consternação de quem presenciava tudo, também, e os via a lutar no mar, (já sem forças). O barco a parecer de papel. Incapaz de contrariar um destino fatal. Dias, em que alguns por lá ficaram e nada, nada, tinha gosto. Cheiro, ou sabor! 


 


Nesses dias o silêncio, vestia as ruas. A tarde amorrinhava-se a um canto, cinza e fria. A noite nascia mais escura!


 


P1010039.JPG


 


P1010042.JPG


 


Dias de tudo estar bem, quando acaba bem! A que regresso sempre que posso. Dias tão nossos! Cheios da alma desta gente que é, também, tão minha!


 


Perdi a conta aos  dias que passei aqui. Aos anos que comunguei desta faina, até lhe saber os rituais. Dias de uma felicidade extrema. Hoje ainda mais valiosos pela conjuntura que nos rodeia. 


 


 


 


 

Comentários

  1. Há memórias que são deliciosamente perfeitas. 

    ResponderEliminar
  2. É verdade, Nala!  Muito obrigada, pela sua visita. Um bom resto de semana!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares