Soito, Cadafaz e Colmeal
De visita aos arredores, das terras, dos meus avós maternos.

O nevoeiro denso e frio entre os pinheiros da floresta. Assente, já pelos caminhos, ao entardecer.

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável.
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.
Alberto Caeiro







Ponte Velha

Cabreira - Praia Fluvial





Frio? Na cidade não faz frio. Frio... está, ali! Ainda assim, quem gosta de frio, mais frio suporta. Por entre montanhas e neblinas. Riachos, pedras e galhos. Gelo, na estrada. Geada na vegetação, roupa molhada, pés ensopados... nada nos faz recuar! Nem o conforto da lareira quentinha que nos aguarda em casa. Frio? O que é o frio?!

Quem me dera, aqui morar...


Fumo
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces plenas de carinhos!
Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu amor pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos...
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

Não se sente o nariz e nas pontas dos dedos, um milhão de agulhas obriga-nos a friccioná-las, para que o sangue escorra. O ar que nos sai dos pulmões, une-se à névoa.
Nem quando chove... uma chuva que é gelo, há vontade de regressar ao lume. A única vontade que prevalece é de ficar. Pertencer, aqui!
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