Somos feitos de Lugares e de Vivências
Jardim por trás da casa, actualmente.
Fotografias são minhas.

O ribeiro que se faz rio e passa por baixo da ponte, que liga a vila.

Há memórias que nos fazem bem e outras, que além do bem que nos fazem...transformam-nos os olhos, num rio!

Recatados o moinho e a nora, que não se cansa...

Por aqui corri, brinquei, caí e esfolei joelhos. Muito deste ajardinado eram vastos campos de milho, extensões de vinha e de pomar. Lembro-me da casca aveludada dos marmelos, que pendiam sobre a água.
Das "malgas" de marmelada acabada de fazer, com rodelas de papel vegetal por cima, perfiladas no parapeito da janela, pelas mãos sábias da minha avó.
Esse círculo de papel era salpicado de aguardente caseira. "Lícita" de fabricar na altura. E, assim, a marmelada mantinha-se deliciosa por meses. Cristalizando apenas, às vezes, por cima.

Recordo-me de, traquinas, enfiar-me no ribeiro (tão gelado, que cortava a carne) nos primeiros dias de Outono. Em conjunto com a criançada (filhos de caseiros, meus amigos do peito), apanhava agriões, enquanto contávamos as badaladas do sino, que chamava os adultos para a missa.
De ir com eles, de sachola ao ombro, desviar a água nas levadas para chegar aos campos. De tomar depois banho nas poças, atirando-nos água uns, aos outros. Saltitávamos de seguida, como cabritos, caminhos fora, à "cata de amoras".
Aparecíamos quase irreconhecíveis de sujidade, ao fim da tarde, depois das tropelias. Famintos... por um pedaço de côdea de broa, quando já se estendia no ar, o incomparável odor do borrego assado, com arroz de forno.

Foi por aqui que se formou muita da minha personalidade ao lidar com gente boa, genuína e de carácter forte. Revivo as minhas incontáveis incursões pela quinta. Cada recanto que conhecia, como às linhas das minhas mãos. Esta é também é a minha terra! A minha gente.

Recordo-me de querer experimentar tudo e, com uma foice, cortar molhos de erva que mal me cabiam na mão pequena. Vi mondar, sulfatar, podar. Entrei capoeiras dentro e recolhi os ovos das pedrezes, para levar à minha avó. Subir as esclaeiras, a duas, e corri casa fora, rumo à bilha de barro, com água fresquinha. Era simples e excepcional, a vida!
Surge-me na retina, por momentos, a azáfama do mercado aos fins de semana. Faltam-me as camélias, as dálias, crisântemos, hortênsias (tão amadas pelo meu pai). O cheiro do bucho desenhado que, o meu avô também, esculpia, formando românticos nichos. Sinto falta dos bancos de pedra, em que nos sentávamos à sombra no Verão, em silêncio, bebendo as formas e odores da natureza.
UMA DAS CASAS DA VILA

Ainda ouço o piar dos pavões que largavam penas pelos caminhos. Vejo-os exibir a sua plumagem num leque exótico maravilhoso. Revejo as pombas, os faisões. As araras e demais aves, que coabitavam na gaiola enorme no acesso à piscina.
A grandiosa piscina... debruada a granito, esperava-nos, secreta. Ocultada pela folhagem coesa, entrançada, protegia-nos dos olhares de fora. Um dia... sem parar quieta, caí lá dentro. Não fora a mão providencial do meu pai, tinha-me afogado.
Faltam-me as uvas a caírem de latadas/ramadas, derreadas de cachos, quer brancos, quer tintos. O cheiro do milho e as suas barbas loiras e acastanhadas. Tenho saudade das desfolhadas. Do ritual que envolvia. Das pencas para o delicioso caldo verde, feito com farinha de milho e bom azeite. Falta-me, na cidade, o cheiro das noites minhotas que experimento muito ténue, às vezes, nas manhãs nublosas. Tenho saudades de olhar aquele incomparável céu estrelado. De ver o Marão vestido de branco.
MONTE FARINHA
SENHORA DA GRAÇA

Tenho saudades das romarias... dos dias que se passavam a fazer o farnel para depois irmos a pé à Senhora da Graça, ou à Senhora do Viso. De quando a minha avó contava que eram sete as (nossas Senhoras, irmãs) e que se viam dos montes onde "moravam" umas, às outras. Da fé do meu avô por S. Gonçalo de Amarante... aonde ia religiosamente, todos os anos!
Está-me ainda presente o soar dos acordeões! A voz muito fina das raparigas a cantar modas da terra e a dançarem caminho fora. Lembro-me de os garrafões se "vestirem" de palha. E de terem duas "asas".
Do vinho, neles, ser de uvas pisadas na minha frente. Lembro-me das colmeias do meu avô! De ser picada pelas abelhas, mais do que uma vez. Das histórias da Serra e do uivo dos lobos.

Parte de cima da vila

Das vezes que nos levantávamos de madrugada, noite cerrada, para apanharmos aqui a automotora que fazia ligação com o comboio em Campanhã. Havia mais à frente uma ponte de arcos, antiga (linda), por onde passava a automotora rumo à Régua.
Seguia... por uma paisagem deslumbrante entre ravinas por onde espreitava serpenteando, o Tâmega. De comprarmos as Regueifas e o Ovos Moles, nas estações, pelo caminho.
ResponderEliminarBoas memória. Um local lindo.
Boa semana
É lindo sim, Anita! Já foi em tempos, ainda mais bonito. Era a terra do meu pai.
ResponderEliminar