Fataunços

Amanheço, calma. Desanuviada. Estremunhada ainda, ouço o ferrolho da porta ser corrido. Descortino-lhe os contornos por entre a porta e o nevoeiro lá fora, num frio que entra sem convite e me beija o rosto. Fecho os olhos mais um bocado. Aninho-me nos lençóis quentes. Na coberta, leve, mas consistente, que tapa um edredão de penas, mas já não durmo. Fico a ouvir os pássaros e por entre o sussurrar das folhas, consigo identificar o silêncio. Suspiro. Fundo! Estou em casa, na casa de outrem.


Deixo a preguiça entranhar-se, um pouco! O bem-estar que provo, ali camuflada, depois de olhar com minúcia o tecto. A pintura das paredes, os medalhões no cimo das camas, o pormenor das cadeiras, sempre envolta na doçura mole, de quem desejaria que o tempo parasse! Regredisse e os meus avós e tios, já mortos, me fossem cumprimentar, mal saia a porta do quarto.
Os meus amigos de brincadeira, estivessem todos lá! Aguardassem, para irmos pelos caminhos apanhar amoras, ou sachar milho. Nadar no ribeiro, ou apanhar agriões, junto ao moinho velho. Mugir as vacas e "pensar" os porcos. Espreitarmos no galinheiro se os ovos estavam à mão... Mas o lugar é outro! O tempo, também! Sei que a vida me espera, mas não a mesma. Ergo-me! Depois do banho retemperante, espreito o dia.

Todas as fotografias foram tiradas por mim

O cheiro é idêntico. As casas, são exactamente iguais. O cinza matutino, sorrateiro, que cresce rente ao chão, como ao crepúsculo e balança sobre as árvores, passeando, dançante entre elas, parece ser o mesmo. A pronúncia? É a mesma! Os sorrisos... impagáveis. Os bons-dias, são-nos ofertados, por parte de quem nunca nos viu, mesmo ao cruzarmo-nos na rua, como se fossemos primos.
As indicações de locais de referência, intimam-nos a ir lá, explicando ao pormenor melhor que um mapa os "lugares ocultos" em papel! Sinto-me diferente e mais eu, aqui. Feliz! Leve. Entre os "meus!"

A casa senhorial tem as antigas "escaleiras" de pedra e é ladeada de cedros e outras árvores. A "nossa" é térrea, linda, cómoda e orlada de malmequeres cor de fogo, amarelos e outra qualidade de flores, no meio. Todo o espaço ao redor é o da minha infância. Como se o fossem buscar e mo ofertassem, por se tratar de ser, eu. A cama?
Ó deus! Como dormi... e como, de cada vez, tenho mais saudades de nós. De mim, a norte. Do teu norte... em mim. Das raízes que me deste. Dos ramos que delas brotaram e desta Terra que me corre nas veias. Sem eles e sem ti, sinto-me sempre desnorteada. Uma, pobre, sem terra.

O pequeno-almoço, é-nos servido, um pouco mais tarde, logo a seguir à minha volta solitária pelo espaçoso lugar. Gosto de andar cedo, sozinha por entre a natureza. Informam-me que o sumo de laranja acabou de ser espremido e que veio das laranjeiras da propriedade, carregadas de frutos. Não me admira!
O tradicional fiambre e presunto, curado, sabem-me, como se fosse a primeira vez que experimentasse tais iguarias. Há queijo, pão "fino" e da terra, cujo odor... inebria. Fico-me, pelo último!
A manteiga, fresca terá sido batida como as natas, recentemente e, tal como o doce, estão servidos em porcelana inglesa. O meu olfacto alerta, para o também a fumegar, café! Por ali, aparecem também leite, ou, chocolate quente... que nos é distribuído a gosto, consoante se requeira e escolha!

Mas são as veredas para onde olho, pela janela aberta! As "avenidas" ladeadas de verde, que dão acesso aos largos quadrados murados, onde os tapetes de musgo se espraiam, nos blocos de granito. O sino dá as ave-marias! Conta nove horas, à badalada. O cheiro! Este, cheiro. O cheiro, mesmo por entre o do café e sumo!
Já vos falei do cheiro? Já!
Do perfume da natureza em estado puro? Sim! Cheira a erva. Arbustos. Flora diversa. A madeira, almiscarada. À "envolvência" doce das flores. Acidez moderada dos frutos. Cheira a morangos no jardim. À humidade da manhã, que durante a noite, fez as folhas e pétalas "chorarem," agora cobertas do orvalho puro. Há abelhas a namorar a alfazema!
Borboletas brancas a bailar! Inúmeras teias de aranha, pelos arbustos e relva. Cumprido o ritual da alimentação, "fujo" para os vários sítios que identifico

O lagar. Onde antes os homens pisavam a uva em tinas imensas de pedra, abraçados uns aos outros a cantar. O velho alambique repousa a um canto, sendo hoje, um "aparelho" temerário! Não se pode fabricar aguardente e vender...
Regra imposta por meia dúzia de néscios, de uma comunidade patética, que não sabem o que é bom! Mugir as vacas e beber a seguir, aquele néctar quente, também "ganhou" sinal proibido!
Passo pela loja! Onde se guardavam as provisões e por lá estão ainda as alfaias. A garagem, onde os cavalos descansavam após suarem a puxar as "caléches" substituídos hoje, por outros cavalos de lata polida e uma marca estrangeira aposta no motor.

Desfralda-se o mapa... vamos à descoberta! Ainda nem levantada está, uma ponta deste maravilhoso e trabalhado véu.
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