Todos os meses cumpro a vontade da minha mãe...

Todos os meses reunimo-nos aqui, cumprindo a vontade da minha mãe. Por uma hora, mais, ou menos, estamos unidos como ela gostaria, dando "corpo" à sua fé e desejo.
Mas este lugar é muito mais e enquanto me sento ali, regrido ao tempo de menina. Da catequese. Das tropelias. Do missal, que ainda mantenho, repleto de pequenos postais e outros. Assinados pela minha catequista e por todos os meus colegas de 1.ª comunhão e... folia.
Porque ir à Igreja não era só rezar e estar quieto! Santos já lá havia muitos, não se carecia mais. Éramos crianças e como crianças brincávamos antes das "aulas" e a seguir. Cantávamos cheios de alegria as músicas, que nos propunham...
Explorávamos cada recanto deste bonito e antigo "templo", de modo tal, que hoje... não praticante, há muito, mal ali entro, recordo cada incursão. E, mesmo, a cor do meu vestido de comunhão (branco, de linho e bordado a ponto de cruz azul). Pode soar comum, mas para mim, na altura... era o vestido mais bonito do mundo! Que soquetes brancos de renda enriqueciam, culminando o conjunto, no especialíssimo sapato de verniz de presilha.

Quantos anos passaram? Há quantos não vou à missa ao domingo, mas via-a na televisão - em confinamento - cumprindo, na mesma, a vontade dela.
A minha fé é de raiz católica, porém... sinto-me aberta a outras diferentes. Será isto, fé, de todo? Não será fé, mantermo-nos fiéis apenas a Deus? Não será Deus o mesmo em todo o lado, deem-lhe o nome que entenderem?
A igreja onde fui "iniciada" na fé, é linda! Tão antiga... que já terá visto inúmeras crianças, que se tornaram adultos (talvez contraindo matrimónios, ali) e daí em avós de outros miúdos que levam à missa, ou à catequese.
Quantos já se baptizaram, aqui? Por quantas almas já se rezou e há-de rezar?
O Padre Miguel Pereira é um jovem! Bastante jovem, que parece crer cegamente na sua fé e orgulhosamente declara a sua gratidão por sentir o "chamamento". Gosto das suas homilias. Gosto de olhar para a abóboda da "minha" igreja. De recordar que deixei ali o meu ramo de noiva, aos pés de Nossa Senhora de Fátima. Mas...
Não vou à missa regularmente! Não cumpro rituais. Às vezes, muitas, sou um pouco herege, quando brinco com "coisas sérias". E... não adoro outros "deuses", mas sinto-me atraída por outros "dogmas". Serei realmente digna de estar/entrar, aqui?
Seja como for. Uma vez por mês volto a ser a Fatinha, por mais anos que passem. Revejo as vizinhas da minha mãe, que me consideram quase filha também e sempre se consideraram família, umas, às outras. Interessam-se pela minha saúde, a minha felicidade, a dos meus. Estão sempre prontas a ajudar, como o faziam com a "Menina Amélia". Marcam presença na ausência dela e fizeram, tudo o que podiam, também no fim.
Aqui... onde moro? Dar-me com 3 pessoas que vejo de, quando em vez, já é bom. Quando se algum dos outros nos der bom dia, ou segurar na porta, é um luxo!
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