Ponte Fajão - O Sangue que me corre nas veias...

fotografias minhas

"A felicidade é a experiência suprema do seu regresso a casa, do sentir-se tranquilo e em paz com a existência, numa completa unidade e harmonia".
Osho

Foram daqui, os meus! São-no ainda. Estão por lá nas serras, nas voltas do vento, sentados nas pedras a zelar pelo que foi seu e hoje outros tratam. A zelar pelos que ficaram e os que hão-de vir, que sem eles, nunca existiriam. É daqui o meu nome, o meu sangue. Também daqui. Como... de outras serras, outros cursos d'água, outro chão.

Somos como rios, sim! E a soma dos seus afluentes. O curso principal foram os que nos deram vida. Os que para viver e progredir se instalaram nestas partes, as desbravaram e por lá continua inscrito ainda, o seu nome. Em pedra! Que perdura e os recorda. Os honra. Lhes agradece.


Fazemos parte desta árvore genealógica, qual "teia" com os seus filamentos entrelaçados a estabelecer um padrão…


Uma família pode comparar-se a um rio como o seu leito principal e outros braços que dele partem, ou que a ele chegam. Desde o primeiro que a fundou, até ao que no presente, carrega com orgulho o seu nome e tradições.


Somos como canteiros de flores, cada uma com as suas características dentro da mesma pernada que compõe um ramo e se reparte por todo o jardim...


Somos a Terra, pois! As casas, o sotaque, os hábitos. Parte integrante das placas toponímicas que exibem o nosso apelido...




Rios, ribeiras, regatos. Pequenos e quase secos fios de água que não se demovem de prosseguir caminho... apesar dos obstáculos.





Somos degraus, ruas e cada recanto por onde andaram, a que voltamos para os recordar e honrar. Às vezes a lacrimejar comovidos quando alguém revê em nós os traços deles. Então somos também abraços!

Somos as pedras, o musgo, os caminhos e as árvores que os viram passar - onde se sentaram - nos seus ires e vires de labuta árdua e que, hoje, nos cumprimentam.


Somos daqui, dali. De onde eles vieram e para onde foram, a procurar melhor vida.





Tudo começou com um, à procura do seu par...

Dando origem aos nós - que se seguiram - e continuaram a multiplicar-se como flores silvestres





Somos ao olhá-las assim sozinhas, na decrepitude do que foram um dia, a memória viva de candelabros a luzir por entre as cortinas em dias de festa. Testemunhas das sombras enlaçadas, valsando e rindo. Dos cascos dos cavalos a trote na calçada. Portas a abrirem-se de par, em par. Dos copos a tilintar em brindes ao futuro. E dos choros de crianças, recém-nascidas, que perpetuarão este legado.

“A casa em que nasci, Marianinha…”
A casa em que nasci, Marianinha,
está voltada a Su-sueste
e tem à frente um cipreste
de atalaia à seara e vinha.
Casa já antiga, descaiada,
se o Sol lhe bate na fachada,
inunda-se a varanda de alegria;
tia Rita fia na roca
e dos buraquinhos da alvenaria
salta pardal com pardaloca.
À velha chaminé é um regalo
ver o fumo subir, fazer halo.
No montado, ouvem-se anhos balir
e derretem-se lantejoulas a luzir,
trouxe-as a Primavera no regaço
e espalhou-as pelo tojo, urze, sargaço,
sem desprezar trigal, jardim,
rampas, refúgio de erva ruim.
Manhã cedo, rompe a cantata,
nas árvores de fruto e pela mata.
─Sol, Sol! ─trauteiam os pardais,
tordos, melros e verdiais.
─Sol, Sol! ─pede o tuinho na balsa
e o auricu que apagou o candil na salsa.
E o Sol ergue-se por detrás dos montes,
e lá vem, sem olhar a vias nem pontes,
triunfal, contente como um ás,
com sua capa de arcebispo primaz.
Quem não ouve decerto sente
que vem salvando: ─Olá, boa gente,
pássaros a voar e no ninho,
fonte, e tu a ladrar, cãozinho,
para que abram e nos deixem entrar.
Olá, meu amigo carvalho,
à minha espera no festo da colina,
e, no almarge, o carneiro do chocalho,
o cabrito, a cabrinha e até o chibo,
ronda-vos o lobo, mas sopro a neblina,
e vai mais longe buscar o cibo.
Salve, amigos, haja fartura e alegria!
Rompe logo um coro em tom maior:
─Viva lá o magnífico senhor
Bem haja quem nos traz tão bom dia! ─
soltam pintassilgo, pisco, cotovia,
no seu voo alto corvo e açor,
na horta chasco, pisco e tralhão,
pelos restolhais o perdigão,
no pinhal rola e cavalinho,
e associa-se o mágico do cuquinho,
cu-cu, cu-cu, cu-cu, cu-cu.
O mundo fica doirado como um pagode,
despem árvores e arbustos
os véus de noite mal justos,
e não soam mais de frio os queixais.
─Que fortuna aquecer-se a gente
sem pagar coima ou patente
a mateiros e fiscais! ─
rosna o pobre, depondo os atafais.
Olé, lá está ele: cu-cu,cu-cu,
misterioso como um manitu!
─Cuquinho dos carvalhais,
é de alegria ou estás aos ais?
Acusam-te de grande brejeiro
a clamar na coruta do pinheiro
em língua de marabu:
papá, papai, papu
é bom para chuchu.
─Não é nada, nada disso,
como sou embarcadiço,
obrigado a andar em dia,
deixo os filhos à cotovia
e à primeira comadre
que tenha jeito para madre.
─É por isso, cuco dos carvalhais
que enjeitas a prole e estás aos ais?
─Pois é por isso, nem mais.
Adeus, não me tenham por cru,
tirei bilhete para o Pegu…
Cu-cu, cu-cu, cu-cu, cu-cu!
Tia Rita ouve-lhe o saxofone
e comenta: O grande lazzaronne
é mais africano que português,
mas ali, onde o ouves, se não o vês,
ao abalar na entrada de Julho,
vai ele, a mulher, o filho ─são três,
─e o exposto gordo como tortulho!»
RIBEIRO, Aquilino, O Livro de Marianinha
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