Rumo ao Norte!
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Esta noite começou com a normal preocupação de procurarmos o número da carruagem, entrarmos e acondicionar as malas. Depois, a minha impaciência crónica, quando tinha de esperar pela hora da partida e o relógio gigante da estação, parecia tão parado como o comboio.
As pessoas misturadas para cá e lá, numa correria. E o receio quando o meu pai e irmão saiam, para ir comprar alguma coisa ou aliviar a bexiga, que "aquilo" começasse a andar; eu e a minha mãe, acabássemos de manhãzinha em Campanhã sozinhas, com as malas pesadas. A necessitar fazer o transbordo, que nos levaria para mais longe deles! Se bem, que para mais perto de Celorico. Mas quem sabe, nos conseguissem apanhar na Livração.
Felizmente nunca nos extraviámos! Por isso voltei-me para o lado. Com o cheiro característico das estações, nas narinas, mal o apito soou e o solavanco inicial deu início ao percurso. Embalada por aquele: tum, tum, tum... tum, tum, tum... a que ocasionalmente se juntava o chiar fininho e metálico das rodas, que me azia encolher e tapar os ouvidos.
Despertaria com a minha mãe a abanar-me bichanando; "Acorda! Olha o Douro! Já estamos em cima da ponte…" Eu gostava do Douro, mas achei sempre o Tejo mais rio. Mais imponente!
Também gostava das regueifas vendidas entre chegadas e partidas, connosco a pagar, às vezes, já o comboio se pusera em movimento. E as mulheres, divididas em quantos queriam aquele manjar, corriam para o acompanhar e receber o que lhes era devido. Deliciava-me com os ovos-moles em Aveiro. Adorava as barriquinhas desenhadas, que guardava depois, para decorar.
Esta noite desci comboio, subi automotora. Contei as curvas do Tâmega, a serpentear pelas ravinas. Vi os campos repletos de milho, as tronchas e as latadas. Enchi o peito de ar... daquele ar que, quer no centro, quer no sul, não se encontra.
O Tejo pode suplantar o Douro, mas o ar do norte, nenhum suplanta!
Quis prendê-los a todos nos braços, como me tomavam nos seus. Avós, tios, pais… mas não fui capaz!
Só me restaram, o ruído dos carris. O cheiro das tronchas, das latadas e da broa de milho. A "fala" dos pavões. Dos granisés. O ladrar do Toy e o cheiro da fruta madura no pomar. Misturada com o das rosas, crisântemos, dálias, camélias e da água fresca, que jorra, por toda a parte.
Onde isso já vai....
ResponderEliminarEm 2013, dois dias depois do centenário do "Ramal do Tâmega", ou, mais popularmente, a linha de Amarante, a ministra Maria José Vitorino deu por encerrada a linha, entre Livração e Amarante. O restante troço havia falecido há muito, nos idos de Cavaco Silva, primeiro ministro.
Em 2013, perante os presidentes das câmaras de Marco de Canaveses e de Amarante e os presidentes de junta das freguesias de Constance, Toutosa, Santo Isidoro, Vila Caiz, Fregim, Louredo e S. Gonçalo e uma multidão acumulada na sala de sessões da Assembleia Municipal de Amarante, a dita ministra "prometeu" - promessa de política - que a linha seria corrigida e reabriria.
Entretanto levantaram-se os carris e nunca mais se ouviu o tum-tum das rodas da automotora na linha do Tâmega.
Desde o dia em que levaram o último carril sinto-me amputado, e ainda me dói a ferida que cometeram contra nós, os ribeirinhos do Tâmega.
Zé Onofre