Abelhas

 



Fotografias minhas


 


Em miúda cedo fui apresentada a estas maravilhosas criaturas. O meu avô paterno tinha colmeias nas encostas do Marão. Duas ou três, perto de casa e logicamente os filhos, os meus tios e o meu pai, estavam por dentro da lida relacionada com a manutenção, recolha, etcétera.
Por mais de uma vez levei ferroadas, mas nunca as maldisse, receei ou guardei raiva. Não me importava grandemente que girassem à minha volta, obrigando-me a ficar mais quieta. O zumbido não me era incómodo, pelo contrário. E quando me pousavam por segundos, na roupa, gostava de as observar as mexer as patitas, abrir as asas para imediatamente voar. Afinal eu não era uma flor, ainda que trajasse de blusa e soquetes brancos. Usasse uma saia amarela.
Recordo com muita saudade os favos de mel. Sinto uma gratidão enorme de poder lambuzar-me com eles, quando o meu avô, tio, ou o meu pai, passavam-me um pedaço ainda a escorrer; achar imensa piada aqueles alvéolos; com os dedos pequenos amassá-los e de eles me explicarem que era cera; do perfumadíssimo aroma e da história pormenorizada da vida e hierarquia da colmeia.  




Sempre gostei de abelhas! Ao contrário da minha filha mais nova que lhes tem pavor. Por mais que teime e a avise que não nos fazem mal, a menos que se tenha intolerância ao "veneno" do ferrão e que sem elas o mundo seria muito diferente, não há como a fazer mudar de ideias.
Engraçado: ainda me recordo do meu avô, homem teso, mas meigo, afirmar: que uma ferroada ocasionalmente, só nos fazia bem!
Fui uma miúda com sorte! Convivi com as abelhas, galinhas, pintos, coelhos. Os bois, os seus carros carregados de feno; ou para onde subíamos quando vazios e lá íamos... de pernas a dar, a dar. As vacas-leiteiras, cujo leite acabado de tirar bebi, deixavam-me os "bigodes" brancos. Os porcos, os pavões, os cães. Aprendi a regar, ceifar. Colhi e desfolhei milho e nas eiras, entre cantares dei e recebi beijos, quando aparecia o milho-rei. Fiz parte das romarias. Fui à Senhora da Graça e ao Viso. 
Partilhei momentos de ouro com a minha avó na masseira; aprendi como se cozia a broa. Se fazia a marmelada. E a pôr-lhe por cima rodelas de papel vegetal, passado por aguardente para não cristalizar. Com as abelhas por perto. Com a sua mordida nas mãos ou pernas e... só me fez bem avô! Só me fez bem. 


 


 

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