No regaço de um espigueiro, como no colo de uma mãe.


As três fotografias primeiras desta publicação foram tiradas por mim
O espigueiro, também chamado canastro, caniço ou hórreo, é uma estrutura normalmente de pedra e madeira, existindo alguns inteiramente de pedra, com a função de secar o milho grosso (vagens de feijão até se separar o fruto seco) através das fissuras laterais, impedindo a destruição do mesmos por roedores através da altura a que estão do solo. Em Portugal Continental, encontram-se principalmente a norte, nas regiões do Minho, Beira Litoral, Beira Interior e Oeste de Trás-os-Montes. O maior espigueiro de Portugal está na aldeia de Carrazeda (freguesia de Bucos), no município de Cabeceiras de Basto.

Brinquei tanto, mas tanto, em espigueiros semelhantes, todos de madeira pintada de grená, com os pilares em pedra, no meio das espigas de milho. Nos montes de grãos e feijões, já secos. Relembro-lhes o cheiro característico, a penumbra deliciosa, lá dentro, a filtrar a poeira fina, em dias de sol. A frescura que fazia lá, quando cá fora ainda estava um calor infernal. As sonecas! Uma perna para cada lado, depois da folia... e a minha avó, tias, ou mãe a chamar:
- Fatinha, Fatinha! Aparece rapariga! Onde raça a catraia se enfiou?
Enquanto era Fatinha a coisa estava boa. O pior era quando o clamor passava a Fátima ou, Maria de Fátima e a voz endurecia. Era sinal para arranjar a melhor das desculpas, ou então fugir!

Fotografia acima e demais que a sucedem retiradas de diversos sites. Direitos do autor respeitados a que agradeço poder fazer uso. Caso haja necessidade, serão retiradas
No Outono ia-se para os campos e entre outros trabalhos, cortavam-se as canas do milho que se transportavam depois para a eira, num carro de bois. Despejados aí os carros, dispunham-se em roda, vizinhos e amigos que se ajudavam mutuamente. Ora a uns, ora a outros, nestas ocasiões. E em torno de uma montanha de espigas que se tem de descamisar, eram gastas horas, num trabalho duro e moroso, que tentava despachar-se o mais depressa possível. Tarefa que se levava melhor entre gracejos, modas e sorrisos, que de modo contínuo surgiam no grupo.
Às vezes, competia-se na brincadeira com os companheiros, vendo quem conseguia deixar "à sua conta", um monte maior de milho "encestado". Os cestos de verga cheios, despejavam-se no canastro, ou espigueiro. Durante a desfolhada o aparecimento das espigas com grãos vermelhos, eram sempre recebidos com uma festa! A festa, dentro de outra festa. Quem as encontrava tinha de gritar de modo a todos ouvirem:
– Milho Rei! Milho Rei!

A pessoa que encontrara a maçaroca rubra ia então, pela roda inteira, distribuindo abraços ou beijos. Noutros tempos, essa era talvez a melhor oportunidade para os rapazes se aproximarem mais intimamente das raparigas que tinham debaixo de olho. Ou mesmo das namoradas, osculando-as publicamente sem "calhar mal" aos restantes.
Outros tempos em que tudo fiava, fino! Por pouco se ficava falado e o respeito e a honra eram o tesouro maior! Tanto do pobre, como do rico.
Desfolhada terminada, desfrutava-se de uma farta merenda oferecida pelos donos da casa. Não faltava a broa de milho ou de centeio. Azeitonas, enchidos, pataniscas de bacalhau, caldo verde e por vezes, sardinha assada. A pingar sobre a broa. Tudo regado a vinho bom! Pisado no lagar, servido em cabaça, ou malga, tingida com as lindas cores da uva minhota.

As concertinas e as harmónicas de beiços entravam em acção! Erguiam-se os braços, afinavam-se as gargantas. Cantava-se e dançava-se em amena cavaqueira. Mas o tratamento do milho não se ficava por aí. As folhas aproveitavam-se para encher os colchões em que se dormia. As espigas malhavam-se para debulhar os grãos do carolo, a parte branca onde o grão está agarrado, que se aproveitava seguidamente para o fogo. O grão do milho era então "peneirado" e posto na eira ou nos espigueiros a secar.
Recordo as vezes que por lá brinquei entre os montes de grãos. E que caí sobre eles, arrependendo-me da traquinagem, porque pisei mal nas minhas correrias incauta e... Pimba! Doía bem, esfolando a carne! Lembro o cheiro característico dos espigueiros e como era bom estar lá dentro, à sombra e ao fresco, quando cá fora o sol crestava.
Hoje os carros de boi deram lugar aos tractores. Os jovens abraçam e beijam quem pretendem. A maioria, já não vê motivação em tais convívios. Agora para tudo há máquinas, a espiga vermelha deixou de ser a rainha da festa! Embora em alguns concelhos de Portugal ainda se reúnam alguns grupos para a desfolhada. Estas, muito pouco se parecem com a riqueza das realizadas, em décadas passadas.
Informação: Jornal C - O Caminhense, Wikipédia, conhecimentos pessoais das tradições vividas na 1.ª pessoa, fotografias minhas, das outras respeitados direitos de autor.
"eira (https://pt.wikipedia.org/wiki/Eira), (https://www.vivadecora.com.br/pro/curiosidades/eira-beira-e-tribeira/)
ResponderEliminarBom dia, meu amigo!
ResponderEliminarOs que temos estas memórias, possuímos um tesouro que muitos desconhecem. Dos fenos lembro-me das medas (https://thumbs.dreamstime.com/z/terra-do-trabalho-de-haycock-25379933.jpg)aqui e ali, havia uma ou mais e o perfume inconfundível daquela frescura da palha, no meio das vinhas, das tronchas, feijoeiros, dos pomares, das fontes a deitar água no meio dos fetos, ainda hoje o tenho presente, O que eu corria, cima, abaixo pelos campos... tudo que retenho, como provavelmente acontece contigo, dá uma saudade enorme mas um prazer descomunal recordar e ter podido viver estas experiências. Uma boa semana!
Muito obrigada pela visita. Tudo a correr bem, cúmplice!