Menina e peregrina

Fontanário nas redondezas do Santuário de Fátima, 2023 - fotografia minha
Recordo-me ainda! Porque recordamos normalmente o que nos marca. Tudo que nos faz felizes e por estes dias a "imagem" é recorrente. Lembro então os dias e as viagens a Fátima; a que não se chamava peregrinação, antes visitar o Santuário; prestar culto a Nossa Senhora. Deslocações em que a alegria era muita e também contagiante.
Eu miúda, na companhia dos meus pais, sem saber que peregrinava, mas entusiasmada sempre que íamos, evoco as recomendações da minha querida mãe: permanecer calada e comportada mal entrávamos no recinto. Ouvir o meu pai, embora crente e um homem extraordinário, refilar constantemente, baixinho, sobre a "opulência" de igreja; indumentária dos padres e apregoar que não precisava de um ministro da igreja para confessar-se, porque o fazia a Jesus!
A mãe suspirava resignada com o marido "insubordinado", a contrariar os conselhos que dava. Contagiar o meu irmão com as críticas, mas no fim, ser ele (pai) a quem as lágrimas corriam também cara abaixo, mal via a Senhora ou acontecia a procissão do adeus.
Naquele tempo, não haviam hotéis e as infraestruturas que existem hoje. Merendava-se na mata, dormia-se nas camionetes, usavam-se as casas de banho das "Casas de Pasto" e a higiene fazia-se em recato, com um chuveiro improvisado e cobertores à volta. O que não deixava de ser divertido para as crianças, uma trabalheira para os adultos.
Mas todos, todos, todos, viviam aquelas horas como se fossem um. As pessoas eram mais humildes! Partilhavam entre si, de tudo um pouco. Criavam-se amizades para a vida, entre o pobre e mais abastado existia consideração. Vivia-se mais devagar. A fé era profunda e a palavra dos sacerdotes Lei.
Recordo igualmente, devia ser pecado, imagino; quando íamos de férias, um mês, para o Minho, a terra do Pai - nessa altura as férias eram três meses, outro era passado na praia na zona de Nazaré, Vieira de Leiria -, dos meus amigos e eram muitos, quando vínhamos embora, se despedirem de mim com o Cântico "Ó Fátima, adeus…" coisas de gaiatos. E eu ria. Acenava-lhes. Era uma Fátima pequenita, não santa, jamais santa, mas peregrina. E não sabia.
Ainda hoje lá vou! Todos os anos. A minha filha mais velha, não muito dada a "fé", sempre que para ali vai em trabalho, visita o Santuário. Acende uma vela por todos. O meu irmão, antes avesso a devoção praticante, é hoje, após um acidente que o deixou em perigo de vida, uma presença assídua. Ele e todos os seus! Todos, todos, todos... sabemos que a Mãe, se tem os braços abertos, não é em vão! Assim possa perdoar-me, às vezes, as minhas divagações. Porque "saio" ao meu querido pai.
Mas logo encarrilo! E observo com desvelo os conselhos da minha doce e querida mãe.
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