Feita de terracota moldada pelo mar

 

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Pinhal de Leiria, Árvores Notáveis, fotografia minha, Maio de 2014


 


Por volta dos meus dez, doze anos, passávamos muito férias na Zona de Leiria. A cidade propriamente dita, com o seu Castelo. O belo, na altura, pinhal de Leiria e a orla costeira eram o nosso poiso. Com família por lá, as férias de Verão eram ali.


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Pinhal de Leiria, Árvores Notáveis, fotografia minha, Maio de 2014


 


Depois rumava-se a norte, Minho. Três meses de férias davam para nos regalarmos e também fazermos o périplo pelas lindas terras minhotas, indo muitas vezes Trás-os-Montes adentro.


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Fotogradias minhas


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Assim, praias como a da Nazaré e todos os recantos desta bonita cidade, S. Martinho do Porto, também bem escrutinada, Foz do Arelho, Baleal, S. Bernardino, Salgado, Monte Real, aonde íamos passear quando na zona, como mais tarde lá se assentariam arsenais. E as do Pedrogão, da Vieira, das Pedras Negras, praia Velha a caminho de S. Pedro de Moel, o farol do Penedo, da Saudade, Vale Furado, Pedra do Ouro... eram como uma segunda casa; sítios que conhecíamos bem e a que regressávamos com prazer.


Fotografias minhas

Ninguém falava de ondas gigantes. No mar não se viam surfistas. A acção girava em torno da faina, com as mulheres na praia a ajudar. Ou como sentinelas negras de olhos fixos no oceano que a muitos a vida tirou. Ainda me parece ouvir-lhes o pranto. Os murmurejos aziagos, feridas pela dor, privadas do chefe da família. A vida era dura! A comida pouca. O turismo, basicamente, nacional e pouco mais. Nessa altura Portugal para alguns, de fora, era uma província de Espanha. Levaria tempo a situarem-nos no mapa. 



Base Aérea de Monte Real e Termas, fotografias minhas


 


Se a calmaria antiga pedia mais dinamização, a sangria desatada actual de visitantes na área, suplica por contenção. A zona de Leiria sempre se caracterizou pelas densas neblinas matinais. Fresco, para não lhe chamar frio, que queimava tanto como o sol. Que costumava abrir mais para a tarde. Bastas vezes estávamos na praia e caía uma chuva miudinha não suficiente para nos dissuadir. Conheço bem e respeito aquele mar. Em toda a extensão da costa. 
Não fosse um dia um dos meus primos, já homem, pegar-me por um braço, ter-me-ia levado enrolada num, dos seus, como agora lhes chamam, "tubos".


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Fotografia minha, Praia do Pedrogão, Setembro de 2019



É inevitável não voltar! Não se ficar marcado por aquelas paragens, aquelas gentes, saber-lhes os hábitos e os gracejos que, tantos desconhecem, como os nomes malandrecos que davam ao peixe seco. Admirar-lhes os trajes, com os lenços, as sete saias, os saiotes impecavelmente brancos, adornados a grega e os caturnos, que o completaram, em tempos, com as chinelas de verniz no pé. Regresso vezes sem fim aqui.


 


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Fotografia minha, Abril 2023



A estes lugares onde fui e continuo a ser feliz. Grata pela herança familiar que me abriu os olhos para as belezas incomparáveis do nosso país. Fez-me ter um orgulho profundo nas minhas raízes. E querer prolongar relatando-os, os muitos ensinamentos de homens e de mulheres nortenhos, do litoral e das beiras que, embora desaparecidos, continuam a caminhar a meu lado.


 


 

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