Comer (des)acompanhada

 


Publicação original feita em 04.12.17 


 


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Estava frio! Muito, muito frio. O meu bafo, ao sair da boca, esvoaçou para parte incerta e continuou a fugir-me, sem que o tentasse prender. Quando a fisionomia protectora dos prédios nos deixa "desamparados" e o sol se transforma em sombra numa tira estreita de tempo - até atravessar a estrada - quase se morre de frio!


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Gosto de beber café aqui e...


 


Empurrei levemente com a mão o portão verde - sempre encostado nesta altura - e serpenteei pelos losangos grandes de pedra, enraizados na terra, onde relva tenra ainda orvalhada chorava. As palmeiras e restantes árvores oscilavam sob o vento que vem do rio. Dei os bons-dias.
Fui presenteada com um sorriso - como está? -  Apanágio de quem já é "da casa". Após o crónico pedido (meia de leite escura, com café de máquina e torrada de pão igualmente escuro, com manteiga, só de um lado) sentei-me! Ao canto. Como eu gosto de cantos! Só Deus sabe.


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Ao canto espalho o olhar, por horizontes. Acompanhada concluo que não gosto de comer sozinha. Mas inevitavelmente há dias em que acontece. Concluo inclusive que: Há quem diga que se as aves, qualquer animal se aproxima de nós amigavelmente, é porque reconhece alguém bom. Não sei se é verdade. Certo é que os pássaros aqui vêm pousar nos braços das cadeiras. Atrevem-se a saltitar para os meus. Comem-me na mão, dividem-se e cruzam-se em danças aladas, passos pequeninos, saltitantes, que despertam risos.


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Ao canto... com tanto lugar por minha conta, decido que é no canto o meu lugar! Além de nós e a esta hora, o sossego, o "mar". A outra margem, quando na margem de cá já estou eu, vinda daquela para onde olho. E um campo de ténis, quase deserto, onde as redes balanceavam também arrepiadas. 


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Gosto de comer (e de ler) com os pássaros, observada pelas flores e pelas metediças pombas, sem muita gente por perto. Tirar o meu caderninho de apontamentos e garatujar imagens... esboços tontos. Apor uma letra atrás da outra, sem riscar tudo por cima, porque me saiu bem à primeira.
Tudo entre um pequeno-almoço,"à antiga" com uma paisagem bonita e uma bofetada de vento gelado, nos ossos. 
Gosto de acordar com o dia ainda estremunhado e de vê-lo abrir lentamente os olhos, para se tornar definitivamente acordado. Sair... quando a rua esta ainda deserta e parece que tenho o mundo só para mim.


 


 


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