Diários de Inverno I - GÓIS E SOITO



Sou apaixonada por chanfana. Aproveito para comer sempre que posso, porque estes malandrotes cá de casa não gostam de borrego, nem nada derivado. Que injustiça!..

Tínhamos vindo de Condeixa e de uma feijoada tão fenomenal como a comida tradicional. O gosto genuíno do que é bom e a abundância habitual com que nos servem já a norte, acompanhado da simpatia das pessoas. Do quente da lareira, até Góis, onde chegámos já pelas quatro da tarde.


Existia (ainda) uma réstia de sol, mas frio. Muito frio. Bebemos um café, rápido. Levantámos dinheiro, porque lá em cima não há praticamente nada (nem rede de telemóvel, em certos lugares, ou grandes provisões) e começamos a subir. Instalava-se lentamente uma neblina clara.



Lá em cima na montanha está 2.º, graus de dia. À noite a temperatura baixa consideravelmente. Deambulando pela montanha, de carro, existe muita área queimada, mas uma grande porção onde as chamas não chegaram, felizmente., Na verdade, quando toda a envolvência das névoas, tecia uma cortina densa cinza e o verde daqueles gigantes seculares, nos engolia, não seria de estranhar que alguma das criaturas míticas (a existirem) por ali caminhasse.

Embora visitássemos o lugar, pasto recente dos fogos, nesta altura, isto não é fumo libertado pela madeira. É neblina. Neblina que parece seguir-nos deslizante.


A estrada, sinuosa e estreita, é quase sempre acompanhada pelo rio. Água, que serpenteia, mais ou menos visível, que cantarola ao encontrar pedras no caminho, fazendo o ar mais fresco.
São alguns quilómetros a subir. Não tantos assim, mas em que curva e contra curva (sem grandes protecções nos declives) mete respeito e duplicam em tempo.
Logo: eram cinco horas, quase noite em certas partes onde a floresta era mais fechada e descia, para voltar a subir, estávamos ainda a caminho. Até que, no coração da Serra do Açor, bem no cimo, vislumbrámos o Soito.



Apenas Serra na frente, dos lados, atrás. Pequenos pontos brancos (casinhas) que polvilham um ou outro lugar. A tristeza do lado queimado e ainda muita amargura no relato das gentes: "a cabeça está a pôr-se em ordem, lentamente, porque em Julho e Outubro o fogo andou por aqui… toda essa frente era fogo!"



Para lá do infortúnio ainda "fresco", recebem-nos com um sorriso. Uma lareira acesa. Aquecimento em cada quarto, toda e mais comodidade que em algumas casas de cidade.


De manhã, bem cedo... após uma torrada de pão escuro e um café bem quente, agasalhos à altura, vou explorar. Continua frio! Outra, recuava. Passava o dia à lareira e a aproveitar o plasma que, incompreensivelmente, transmitia na perfeição; quando os telemóveis mais recentes não tinham rede.

Entretinha-se a ler. Escrevia qualquer coisa, porque a paisagem era propícia a divagações numa saleta envidraçada no primeiro andar, onde se abarcava tudo ao redor e dois bancos e uma mesinha, formavam um bonito recanto de estar. E como deve ser aprazível estar ali no Verão. De janelas abertas de par, em par.

Não! Onde o Silêncio reina, as palavras não valem nada...

E eu nunca sei, realmente, ser fiel e descrever a beleza que os meus olhos veem. Como as lentes de uma máquina fotográfica ou de um telemóvel, nunca reproduzem, com precisão exacta, o que o olho humano percepciona. Seria em vão qualquer rasura.

Além (d)isso... As gotas de água numa pétala, quando passeio, intrigam-me desde sempre. Nunca sei se é doce orvalho ou milagrosa chuva. Concluo: se são choro recente. Tão-só, pura beleza.

Acredito piamente que esta zona vai, em breve, ser como era! A muita água a escorrer por todo o lado... a humidade do ar, fazem com que até entre as pedras brote a vida. Vida que o homem ingrato procura covardemente matar, não poupando, sequer, a vida dos seus iguais quando acende um fósforo e lança a devastação sobre a terra.
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