Diários de Inverno - SOITO, CADAFAZ E COLMEAL
Publicado originalmente em Fevereiro de 2018


Por aqui, pertinho, ficam as terras dos meus avós maternos. E eu também sou, estas terras, estes rios.

Frio? Daquele frio que nos queixamos? Sabemos lá o que é frio. Não. Frio... está, aqui! Ainda assim, quem gosta de frio, mais frio suporta. Por entre montanhas e neblinas. Riachos, pedras e galhos. Gelo na estrada. Geada na vegetação, roupa molhada, pés ensopados... nada nos faz recuar!

Todas as fotos foram tiradas no local pela autora do blogue.




Ponte Velha - Cabreira - Praia Fluvial



Nem o conforto da lareira que nos aguarda em casa nos demove. Frio? O que é o frio?! Não se sente o nariz. Nas pontas dos dedos um milhão de agulhas obriga-nos a friccionar as mãos para que o sangue escorra.


O ar que nos sai dos pulmões, une-se à névoa. E nem quando chove... uma chuva que é gelo, há vontade de regressar ao lume. A única que prevalece é de ficar. Pertencer. Integrar. Céus e terra!



Fumo
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces plenas de carinhos!
Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu amor pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos...
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

Por aqui, os que cá moram sorriem, de mangas de camisa arregaçada; com a bondade e a franqueza no rosto das gentes puras, ao ver-nos encasacados, a "bufar" pelas ventas ao menor esforço.

Enquanto eles parecem trepar tão facilmente como os cabritos que apascentam. Franqueiam-nos as portas de casa, sentam-nos às suas mesas e dão do que é seu, como se a família os visitasse. É outro mundo. Outra realidade. Aquela que nos esquece, quando nos queixamos da vida árdua, falta de condições. Mas eles não! Eles não.
Sorriem, amam, trabalham. E vivem muito mais que nós!
Uma vida pura. Espelhada nos rostos de um recato belíssimo. Uma inocência incomparável. São homens e mulheres. Todos com corações e olhares de meninos(as).
Comentários
Enviar um comentário