Chegaram os Rouxinóis
Imagem: Rebecca Johnsen, Unsplash
Nestes tempos irados, de muitos dias de semblante acabrunhado para desanuviar apenas num de sol muito breve, o plátano perto da minha janela está nu. Ornam-no somente as características bolas peludas que, como brincos em orelhas de moça, ondulam nos ramos ao capricho do vento, mais ou menos lentas.
Se os dias se quedassem por mais tempo soalheiros, já se teriam transformado em "ouriços", secos pela acção do astro-rei incidindo sobre si.
Assim, mostram-se acastanhados e, encharcados de água, pesados, não deixando de trazer-lhe a beleza própria. De dia cirandam maioritariamente as pombas e outras aves pequenas, ora saltitando de beiral em beiral, telhado ou ramo. Algumas gaivotas, que por estas bandas também abundam. E, nestas ocasiões, fugidas da costa para aqui, ainda mais, descrevendo em bandos numerosos voos caóticos, rasando ocasionalmente as janelas de tal forma próximo que lhes podemos ver os olhos esbugalhados e distinguir bem cada cor.
Não deixa de ser belo, para lá de assustador, se equivalermos o quadro a "The Birds" ou formos de algum modo influenciáveis por crendices.
Eis que senão, há uma noite, repetindo-se nesta que passou, ouvi-os nitidamente. A princípio não quis acreditar. Espevitei por isso o ouvido, negando o torpor em que mergulhara e que normalmente sucede antes do sono profundo, deliciando-me por algum tempo com os seus assobios, trinados e gorgolejos.
Cogitei, entretanto, que, embora não pareça, a Primavera está próxima e os seus trovadores, como arautos da proximidade, não se furtam a esforços para a anunciar.
Creio que o canto do rouxinol é dos mais belos entre as aves. Tendo sido cantado em palavras igualmente por Homero, John Keats, ou Hans Christian Andersen, é merecedor, sem sombra de dúvida, na íntegra, de tal distinção!
Em dias cinzentos e húmidos há quinzenas suportados com a tragédia a grassar por toda a parte, o canto dos rouxinóis continua cristalino. Longe de triste ou melancólico como alguns, o nomeiam, considero-o um verdadeiro alento. Mágico e inspirador.
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